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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Brasil fracassa como nação ao proibir a Fosfo para pacientes com câncer Por Rogério Imbuzeiro




Se uma doença terrível extermina regularmente muitos membros de uma tribo, desde os mais velhos até os mais novos, e se um improvável pajé descobre uma mistura de ervas e raízes com potencial para frear essa devastação de vidas, o que faz a tribo, o que decide seu cacique? Provavelmente, se for uma tribo dotada de sabedoria, decidirá que a prioridade absoluta a partir daquele momento será montar a melhor estrutura possível para que o pesquisador possa desenvolver seu trabalho e comprovar a eficácia da medicação. Ao mesmo tempo, todas as pessoas ameaçadas pela doença, especialmente aquelas que estejam na iminência de morrer, terão o direito de usar a substância, já que trata-se da última esperança de continuarem vivas. Isto será feito porque elas são pessoas importantes para a tribo - ou não são? Estas medidas serão adotadas em regime de urgência porque é fundamental para a tribo que essas pessoas permaneçam vivas - ou não é? Perguntem à presidenta da República e ao governador de São Paulo, perguntem à Mídia e à Justiça, perguntem ao Brasil. Entre os pacientes de câncer e os defensores da Fosfoetanolamina Sintética é senso comum que, se quisessem, nossas autoridades-top já teriam dado um basta nessa situação dramática, trágica, que nos envergonha e revolta. Por que, na nossa tribo de 200 milhões de habitantes, a possibilidade real de cura do câncer não é tratada como uma prioridade máxima? O que poderia ser mais importante do que isso? Não são dez, cem ou mil vítimas: somente em 2015, tivemos mais de 550 mil novos casos da doença no Brasil. Em 2014, foram outros 500 mil. Em 2016, teremos novamente mais de meio milhão de brasileiros com câncer, segundo estimativas oficiais. - Mas de um modo geral o assunto continua a ser tratado como um "patinho feio" do noticiário. À exceção de alguns poucos veículos de comunicação, a maioria de pequeno porte, a impressão que temos é de que fala-se da Fosfoetanolamina Sintética apenas quando é absolutamente inevitável, e mesmo assim a contragosto, com preguiça e má vontade. Por quê? Procura-se uma resposta, que pode ser complexa. Dilma, Alckmin & Cia Foram pelo menos dois meses de silêncio e omissão dos governantes, numa aparente torcida oficial para que o movimento pela liberação da Fosfo perdesse força, pelo cansaço, e tudo fosse devidamente esquecido. Só depois de muita insistência, pressão e cobrança nas redes sociais, que resultaram nas audiências públicas realizadas no Senado e na Câmara, é que as autoridades federais e do estado de São Paulo viram-se obrigadas a sair da toca para demonstrar algum (suposto) interesse pela causa. Em relação à Dilma Rousseff, até pode-se alegar que neste semestre a presidenta esteve tão preocupada em salvar a própria pele, desestabilizada e atacada de todos os lados, que ela pode mesmo ter ficado sem saber que existia a Fosfo. Mas, e seu batalhão de assessores? E a turma toda do Ministério da Saúde? Nada?! Nem uma palavra sobre a substância? Nem uma mínima demonstração de solidariedade com os pacientes, suas famílias e seus amigos? Não é admissível que, a essa altura, Dilma ainda não saiba da Fosfoetanolamina Sintética. Por que, então, principalmente neste período de "festas" de fim de ano, nenhuma palavra de conforto ou consideração dirigida a esses milhões de brasileiros que sofrem? Espera-se isso de quem comanda uma nação - ou será que já não espera-se mais? Um remédio muito barato - sem efeitos colaterais, segundo milhares de pacientes que já usaram os comprimidos Um remédio muito barato - sem efeitos colaterais, segundo milhares de pacientes que já usaram os comprimidos E quanto a Geraldo Alckmin, responsável direto pela suspensão da produção e distribuição dos comprimidos? Será que ele e sua esposa, bombardeados diariamente em suas páginas no Facebook, conseguem dormir com a consciência tranquila sabendo que foram as autoridades paulistas que mataram a esperança de milhares de pessoas que lutam contra o câncer? Sabendo, também, que muitas delas têm morrido sem ter tido a chance de tomar um comprimido sequer da Fosfo que tanto desejavam? Talvez, se não fosse pela suspensão das liminares, alguns dos pacientes que morreram nas últimas semanas tivessem conseguido passar mais um Natal com suas famílias. Quem sabe se eles não estariam aqui ainda, para celebrar a chegada de 2016... Francamente: se um acontecimento com as proporções da descoberta da Fosfoetanolamina Sintética, que começa a ganhar projeção internacional, não é capaz de sensibilizar de imediato os governantes citados, é a confirmação de que nossa política realmente perdeu muito da sua razão de ser. Tanto os estudos que começaram agora a ser desenvolvidos pelo grupo de trabalho criado pelo Ministério da Saúde, quanto os testes anunciados para o primeiro trimestre de 2016 pelo governo Alckmin, são projetos de médio a longo prazo. Não possuem o caráter emergencial que a situação exige.

O sentido da vida
Quase todos os seres humanos, em algum momento da jornada ou mesmo com certa frequência, olham para dentro de si e se perguntam: "Qual o sentido da existência - da minha existência?" Sociedades também deveriam refletir e se perguntar, de vez em quando, qual o sentido dessa joça toda, efêmera e mutante, extraordinária e terrível. O que temos feito da vida, coletivamente? A vida tem sido engrandecida e valorizada em nosso país ou a temos tratado como uma banalidade, uma futilidade, uma coisa qualquer? - Ok, não vamos ser ingênuos e simular espanto demasiado com essa indiferença dominante em relação aos doentes de câncer e sua possibilidade de cura. Estamos cercados de organizações mafiosas e todos os dias o Brasil confirma que tende a ignorar o sofrimento e as necessidades de milhões de crianças, idosos, trabalhadores desempregados, representantes de minorias, desvalidos em geral: o agravamento da crise acirra o "salve-se quem puder". Embora a cada ano tenhamos novas conquistas sociais para celebrar, nos últimos tempos o que temos visto de maneira mais incisiva é a expansão do ódio, da roubalheira, da covardia e do egoísmo. Portanto, o descaso com a Fosfo nem deveria surpreender tanto assim. Contudo, estamos falando de câncer, doença estigmatizada cujo nome evitou-se e ainda evita-se falar, como sendo o maior dos males - mas que deve ser encarado de frente. Os avanços da Medicina têm sido muito significativos nessa área, ao mesmo tempo em que o número de vítimas aumenta sem parar. Neste cenário, a Fosfoetanolamina Sintética, com o grande número de depoimentos e testemunhos de pacientes e pesquisadores que apontam seus benefícios, merecia receber de todos os brasileiros uma atenção muito maior, diferente da frieza, da arrogância e até do deboche que têm prevalecido. A não ser que o valor da vida tenha se perdido definitivamente em nossa terra.

Cada vida é sagrada 
Uma frase que marcou época, atribuída ao jornalista e escritor Otto Lara Resende, dizia: "O mineiro só é solidário no câncer". Diante do que temos visto, alguém poderia atualizá-la e afirmar: "Os brasileiros não são mais solidários nem no câncer". Um exagero, felizmente. Porque também temos visto, de agosto para cá, o crescimento irrefreável de uma multidão (de famosos e anônimos) que tem se manifestado em defesa da Fosfo, nos grupos dedicados à substância na Internet, aqui no site e em nossa página no Facebook, nas ruas através de protestos e passeatas, país afora. Uma legião cada vez maior de pessoas teima em desmentir a manchete deste artigo: "Brasil fracassa como nação ao proibir a Fosfo para pacientes com câncer". Sim, fracassamos, pelos motivos expostos acima. Mas a luta continua. Muita gente tem despertado de sua insensibilidade e falta de conhecimento, para se juntar àqueles que pressionam as autoridades. Acreditamos que, acima das leis, burocracias e interesses mesquinhos, em breve irá prevalecer a Justiça. O pleno valor do Ser Humano.

Extraído de  CONEXÃO JORNALISMO, Por Rogério Imbuzeiro

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